Recuperar rosto da pessoa na internet

A Igreja deve percorrer os caminhos do continente digital

 

"Eu vos exorto a percorrer, incentivados pelo valor do Espírito Santo, os caminhos do continente digital": estas foram as palavras do Papa Bento XVI, no sábado, 24 de Abril, aos participantes do Congresso Nacional "Testemunhas digitais. “Rostos e linguagens na era da crossmedia", promovido pela Conferência Episcopal Italiana.

 

"Nossa confiança não está acriticamente depositada em instrumento algum da tecnologia - afirmou o Pontífice. Nossa força está em ser Igreja, comunidade crente, capaz de testemunhar a todos a perene novidade do Ressuscitado, com uma vida que floresce em plenitude na medida em que se abre, entra em relação, doa-se com gratuidade."

 

Reconhecendo como as fronteiras da comunicação se ampliaram, o Papa afirma que a rede manifesta "uma vocação aberta, tendencialmente igualitária e pluralista", mas ao mesmo tempo "abre uma nova brecha" que hoje se chama "brecha digital".

 

Isso aumenta também "os perigos da homologação e de controle, de relativismo intelectual e moral, já bem identificáveis na flexão do espírito crítico, na verdade reduzida ao jogo das opiniões, nas múltiplas formas de degrado e de humilhação íntima da pessoa", uma autêntica "contaminação do espírito".

 

Diante disso, os cristãos devem "reconhecer os rostos, superar aquelas dinâmicas coletivas que levam a perder a percepção da profundidade das pessoas, ficando na mera superfície", e que transformam as pessoas em "corpos sem alma, objetos de troca e de consumo".

 

É necessário voltar a contemplar o rosto de cada pessoa, explicou o Papa.

 

"Os meios de comunicação podem tornar-se fatores de humanização, não só quando, graças ao desenvolvimento tecnológico, oferecem maiores possibilidades de comunicação e informação, mas sobretudo quando estão organizados e orientados à luz de uma imagem da pessoa e do bem comum que respeitam as suas valências universais", afirmou.

 

Somente nessas condições "a mudança de época que estamos atravessando pode se mostrar rica e fecunda em novas oportunidades".

 

Missão digital

 

Neste sentido, o Papa sublinhou que a Igreja tem uma importante missão neste campo e que deve adentrar-se "no mar digital, enfrentando a navegação que se abre com a mesma paixão que há dois mil governa a barca da Igreja".

 

"Mais do que pelos recursos técnicos - aliás, necessários -, queremos distinguir-nos habitando este universo com um coração crente, que contribua para dar uma alma ao ininterrupto fluxo comunicativo da rede."

 

Cada cristão que trabalha nos meios de comunicação, explicou, tem a missão de "abrir o caminho a novos encontros, assegurando sempre a qualidade do contato humano e a atenção às pessoas e às suas verdadeiras necessidades espirituais".

 

É preciso "oferecer aos homens que vivem este tempo digital os sinais necessários para reconhecer o Senhor", acrescentou o Papa.

 

Para concluir, incentivou os profissionais da comunicação a cultivar a "paixão pelo ser humano", para a qual pode colaborar "uma sólida preparação teológica e sobretudo uma profunda e alegre ‘paixão por Deus', alimentada no contínuo diálogo com o Senhor".

 

 

 

 

Ateus divididos quanto aos “benefícios” das religiões

 

“Por favor, não me rotule – Deixem-me crescer e escolher por mim” é o lema que aparece entre fotografias de duas crianças aos saltos, com um grande sorriso na cara, numa ima­gem que pretende revelar liberdade e felicidade.

 

A campanha está a ser levada a cabo pela British Humanist Associa­tion (BHA), com a militância do ateu confesso Richard Dawkins. Segundo a BHA, “rotular as crianças segundo a religião dos seus pais atenta con­tra os seus direitos e a sua autono­mia”. As imagens foram adquiridas online e os promotores não sabiam que as duas crianças são filhas de Brad Mason, cristão pentecostal, baterista da banda do conhecido cantor cristão Noel Richards. Sem querer, fizeram um elogio ao modo cristão, alegre e feliz, como aquelas crianças são educadas! Nos últimos tempos, está na moda criticar os alegados “malefícios” das religiões. Os ateus, porém, não são unânimes e, entre eles, há quem reconheça o importante papel das religiões. É o caso de Bruce Sheiman no seu livro “An atheist defends religion: Why Humanity is better off with religion than without it” (um ateu defende a religião: a Humanidade está em melhor situação com a religião do que sem ela). Na sua opinião, “a re­ligião oferece uma combinação de benefícios psicológicos, emocionais, morais, existenciais, e até faz bem à saúde”. Não há como experimentar, para ver se é assim.

 

Rui Osório, In Jornal de Notícias, 29/11/2009

 
 

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